Aqui a cor assenta plana, ali deixa-se ver uma camada inesperada. O pó dança ao longo de um bordo. As circunstâncias não são reproduzíveis, tal como a segunda impressão tem apenas um ar de família com a primeira.
O stencil guarda uma forma, não guarda o momento. A mão que recorta o stencil foi, ela própria, moldada pelas circunstâncias, até o impulso de criar se tornou uma história. Uma decisão antiga, guardada em cartão, continua a trabalhar para a pessoa que entretanto mudou.
A forma comum, examinada no stencil, consiste num buraco. Passa um dedo por ele. Não há figura para tocar. Uma abertura, uma ausência que permite as aparências. Talvez seja isso que todos somos - as aberturas através das quais a consciência encontra uma paisagem particular. A paisagem adquire um nome e responde-lhe, tornando-se tão real como qualquer outra fantasia aceite pela maioria.
É essa a substância que enfrentas na tua luta para satisfazer o desejo de fazer uma pintura impessoal. Escolher um stencil não elimina a pessoa que escolhe, apenas lhe dá uma maneira de observar as consequências de uma escolha sem ter de a fazer de novo a cada pincelada. Há alívio em deixar a decisão anterior continuar um pouco mais. Há também curiosidade - quando a forma já não exige invenção, o pincel pode atender à sua pressão e o fundo à sua resistência. Criar torna-se contemplar e interrogar-se.
Pintar a stencil pode ser uma tentativa de ver o real através do irreal, pode significar permitir que uma imagem afrouxe o hábito de apresentar seres separados por toda a parte. Na tela, muitas aparências partilham uma abertura. O olho reconhece indivíduos e começa a contar, mas por baixo deles há uma superfície contínua. Nem o contorno mais nítido consegue tornar independente o que está dentro. A tentação é procurar uma impressão pura, livre de circunstâncias. Poderia sequer existir?
Ergue o stencil antes de o guardar. Pela mesma abertura aparece uma parte da sala: um canto da mesa, depois a janela. Move-o um pouco. A abertura continua disponível para o que entrar no campo de visão.
Se a consciência anima cada abertura, até o desejo de sair da forma e de a compreender ocorreria dentro da forma. E o observador poderia ser apenas mais uma forma. Felizmente, a pintura poderia prosseguir sem procurar uma posição privilegiada a partir da qual tudo se tornasse claro. Isso basta para começar.







